segunda-feira, agosto 19, 2013

Marcas de guerra

Provavelmente uma grande parte de nós tem aquilo a que eu chamo de marca de guerra: uma cicatriz no joelho de alguma queda que se deu quando criança, um lanho no lábio por ter ido contra alguma coisa, uma marca na testa por ter partido a cabeça, etc, etc.
A minha marca de guerra (a maior) é uma cicatriz da apendicite. Uma coisa grandinha e feia, não tanto por culpa do médico cirurgião que me operou e que não teve outro remédio ter de abrir o que foi necessário, mas sim pelo médico que me viu a primeira vez quando começaram a surgir os primeiros sintomas e achou que, sem fazer qualquer tipo de análise ou mesmo sem sequer olhar decentemente para mim, o que eu tinha era uma intoxicação alimentar, dando-me medicação para baixar a febre e parar com os vómitos. É claro que a única coisa que aquilo fez foi camuflar a apendicite e, quando eu cheguei ao hospital, dois dias depois, já ia num estado brutalmente avançado. O resultado foi uma operação de máxima urgência, uma cicatriz a tudo idêntica a uma lagartixa morta mais a cicatriz do dreno, uma semana internada, uma data de tubos que saiam do meu corpo (na verdade, penso que só eram dois, um dreno na barriga e um tubo nas narinas, mas na altura aquilo parecia-me uma quantidade gigantesca de tubos), alguns dias só a soro, furadelas até dizer chega nos braços e mãos devido às minhas veias bailarinas e ao sangue que acabava sempre por subir ao tubo do soro, em vez de ser o soro a entrar nas veias, muito peso perdido (ainda hoje me lembro do sabor a terra dos croquetes do hospital) e um ponto que às tantas se lembrou de infectar.

Isto aconteceu tinha eu 11 anos. Aquela idade em que se começa a pensar largar o fato de banho e passar para o bikini para ir para a praia - pelo menos, eu com essa idade usava fato de banho e não bikini.

Durante alguns anos, o facto de andar de bikini com aquela marca de guerra à vista de todos e a assombrar-me a barriga, a alma e o ego, era coisa para me deixar desmotivada para ir para a praia. Não posso dizer que tenha ficado complexada com a dita cicatriz: foi algo que me aconteceu e o facto de a ter significa, simplesmente, que sobrevivi. Não estive na guerra, não perdi uma perna, não fui alvo de maus tratos, nem nada que seja motivo para ficar traumatizada. Foi, pura e simplesmente, um episódio menos bom. No entanto, também mentiria se dissesse que nunca reparei nas amigas que, indo comigo para a praia pela primeira vez, ficaram a olhar - umas mais discretas, outras mais descaradamente - na minha cicatriz com um olhar que misturava algum asco, na falta de melhor palavra, com pena, com dúvidas. Ou nos demais estranhos que também ficavam a olhar. Para uma adolescente, às vezes não era a coisa mais fácil do mundo. Mas fui crescendo e fui-me habituando à cicatriz e aos olhares mais curiosos. É, apenas, uma cicatriz feia. Ponto final.

Hoje em dia, não me incomoda minimamente, tirando o facto de, mesmo passados 16 anos que fui operada, ainda sentir algumas comichões. Em tempos ainda pensei fazer uma tatuagem nesta zona que desse para disfarçar, mas apesar de gostar de tatuagens, não as acho com grande piada quando feitas na barriga, portanto, cedo meti esta ideia de lado. Não ligo se olham ou deixam de olhar. Não deixo de comprar bikinis só porque tenho esta "coisa" à vista. Os únicos motivos pelos qual hoje compraria um fato-de-banho seria para disfarçar a barriga ou por gostar de algum modelo.

Como diz a minha mãe: quem gosta, gosta, quem não gosta, que vire a cara.

20 comentários:

  1. E a tua mãe é que sabe ;)!!

    Eu tenho uma grande cicatriz no joelho :S

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  2. Tenho uma bem pequeninha perto do joelho...
    Mas nunca me incomodou :)

    beijinhos
    http://modaeleganciaestilo.blogspot.pt/

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    1. Esta da apendicite também já não me incomoda, apesar de ser bem visível. Na verdade, o que eu menos gosto dela é mesmo o facto de ser um pouco fundo e, mesmo nas alturas em que tenho menos barriga, parece que tenho sempre uma mini barriguinha do lado da cicatriz :P

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  3. Tenho uma amiga que passou exactamente pelo mesmo: mau diagnóstico inicial e quando foi para o hospital a coisa já estava mesmo feia!

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    1. A minha mãe depois fez queixa do médico. Ora, ele mal pôs os olhos em mim!

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  4. Também tenho uma "marca de guerra" mas é no queixo e não se nota.
    Quanto à tua, acho que fazes muito bem em não esconder. Quem não quiser ver, vire a cara. Nem mais.
    O meu marido também têm uma cicratiz de apendicite na barriga mas claro nos homens não se repara tanto nesssas coisa, nós mulheres é que somos tramadas. :(


    bjs

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    1. Ahahaah é verdade, para nós é sempre um drama lol

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  5. Oi eu tenho uma enorme, enorme mesmo na barriga... Por isso compreendo muito bem o que dizes, no inicio não queria ir à praia, depois comecei a ir de fato de banho e agora já consigo ir de bikini... Não gosto quando sinto que estão a olhar para a mina cicatriz, nem quando falam sobre ela, a tentar adivinhar o que seria... Hoje já está muito melhor, não está vermelha... mas apagá-la será impossível :(

    Beijinho grande e que se lixem as cicatrizes*

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    1. Antes ficava um pouco incomodada quando me faziam perguntas sobre a cicatriz, hoje em dia não. Compreendi em que muitas das vezes é mais a curiosidade que outra coisa. Mas de início foi mais complicado até porque, como a tua, a minha cicatriz era bem mais vermelha do que hoje em dia. ***

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  6. Ninguém é perfeito minha querida, eu tenho várias "marcas de guerra", várias porque tive e tenho muitos problemas de pés e passava a vida no chão, sempre de joelhos em carne viva, e outras porque nunca ninguém se importou o suficiente para me levar ao médico. Enfim querida, somos sempre nós que nos lixamos, mas que importa, importa é sermos felizes e já estou como a tua mãe, quem não quiser que vire a cara.

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    1. É verdade, a partir do momento em que nos aceitamos como somos e com o que temos, é tudo bem mais fácil! :D

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  7. A tua mãe tem toda a razão.
    Todos nós temos marcas dessas.

    Eu, por exemplo, tenho umas recordações dos jogos de futebol nas pernas, mas é algo que não se nota assim muito.

    Mas segue em frente!
    E não ligues a esses olhares!

    Beijinhos e boa semana!

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  8. Ostenta com orgulho toda e qualquer particularidade tua... isso é de louvar! :)

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    1. Sou como sou, mais vale aceitar isso e ser feliz com o que tenho :)

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  9. Concordo plenamente contigo. Eu cá mostro as minhas marcas de guerra com muito orgulho. Tenho uma na testa que mal se nota e mais recentemente 4 marcas pequenas na barriga de quando fui operada à vesícula em abril passado. Só não as expus na praia porque o médico me disse para ter cuidado com a exposição solar neste primeiro verão. Mas p'ro ano vou mostrar e sem problema algum. Quem não quiser olhar, que não olhe. ;)
    beijinho

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    1. É isso mesmo! Se não gostam, ponham de lado no prato ahahahah

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  10. Por acaso não tenho assim nenhuma cicatriz especialmente grande, felizmente, só uma no joelho, mas nada de especial, apesar de em pequena andar sempre com as pernas esfoladas. Devia ter uma pele muito boa, o mesmo não posso dizer dela agora. Mas concordo contigo. Não há nada a esconder nem de ter vergonha. Não roubas-te ningué,. nem matas-te ninguém... Tens uma cicatriz feia. Só isso. E quem não quiser ver que feche os olhos :p :p :p

    [DESABAFOS E COISAS]

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    1. Eu passei a minha infância com os joelhos esfolados e depois não resistia e tirava as crostas todas LOL mas não fiquei com marcas nos joelhos, por acaso :P

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Gambuzinem