segunda-feira, novembro 25, 2013

Ajudar ou não ajudar?


Lembro-me de ser miúda e estar a pôr as compras no carro com a minha mãe quando aparece uma mulher a pedir dinheiro porque, segundo ela, tinha fome. A minha mãe responde que "dinheiro não dou... mas tome", e entrega-lhe um saquinho com uma dúzia de carcaças acabadas de comprar. A mulher olha para o saco, agarra-o, dá uns quantos passos para se afastar um pouco de nós e atira esse mesmo saco com o pão para o chão e pisa-o.
Anos mais tarde, já estava eu a trabalhar, aparece-me à frente um senhor a dizer que tinha fome. Eu olho para o lado e digo para irmos ali à pastelaria, para ele escolher o que quisesse para comer e beber que eu oferecia. Pediu um café.
Bem sei que nem todos os que andam a pedir dinheiro na rua são drogados e que os motivos pelos quais levaram a que chegassem a esse ponto de mendicidade e, muitos deles, de sem-abrigo, são os mais variados. No entanto, depois destas duas situações, só dou comida para o banco alimentar ou para outras demais associações, assim como também dou roupa. Mas não me venham pedir dinheiro na rua e dizer que têm fome, porque eu não dou.

Mas neste sábado aconteceu uma coisa bonita. Íamos a caminho das compras ao final da tarde quando, ao passarmos por um sem-abrigo todo enrolado em sacos-cama, com a cabeça a olhar para o chão, e com um braço de fora a segurar num copo de papel para lhe darem dinheiro, o Gambuzino diz-me para comprarmos qualquer coisa para ele comer. Ok, está bem. E assim foi: comprámos duas embalagens de bolachas por serem mais calóricas e, quando voltamos a passar por ele, o Gambuzino aproxima-se e pergunta se ele aceita aquelas embalagens. O homem, olha e diz que aquelas bolachas eram do Gambuzino. E o Gambuzino diz: mas eu comprei para ti. E o homem responde que está bem, mas que só ía aceitar uma embalagem, a outra era dele. O Gambuzino diz que não, eram as duas embalagens para ele. O homem, com um sorriso nos lábios e brilho nos olhos aceita, "really? oh, thanks... thanks so much!".

Que o Gambuzino é um homem bom, isso sei eu e sabe toda a gente que o conhece. Mas confesso que não estava à espera de ver o homem, a precisar muito, muito mais que nós, preocupado por ficar com as duas embalagens de bolachas que tínhamos comprado para ele. Confesso que para além de ter ficado comovida com isto, relembrou-me de algumas coisas: as pessoas não são todas iguais, há quem queira ser ajudado e que a acção de ajudar alguém, mesmo só com duas embalagens de bolachas, e ver a sua alegria estampada no rosto é, por si própria, compensatória.

28 comentários:

  1. Sabes? Essa história comoveu-me... Eu raramente dou dinheiro, prefiro comprar comida, então a crianças dou mesmo comida, porque sei que muitas dessas vezes o dinheiro nem é para elas mas sim para quem as explora! :(
    Um beijinho para ti e um grande obrigada ao Gambuzino por ser assim! :D

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    1. Eu acho que só dei dinheiro uma vez porque me senti ameaçada - tinha a minha máquina fotográfica ao pescoço e o homem que me pediu dinheiro já estava a mostrar os braços dele, todos cheios de feridas... mas adiante. Sobre as crianças exploradas, já vi uma a levar um chapadão porque tinha aparecido com comida e não com dinheiro. É uma tristeza :(

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  2. Também já passei pelo mesmo... Dar comida e ver a deitarem fora. É a pior coisa que me podem fazer.

    Foi bonita a vossa atitude.

    Beijocas

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    1. É mesmo muito mau, eu não gosto de deitar comida fora e estarem a ver fazerem isso com a comida que eu comprei? :/
      Obrigada e beijinhos***

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  3. é bonita a história. E tenho aprendido nestas minhas incursões pelo desenvolvimento pessoal, que nós não somos ensinados a receber. Somos ensinados a agradecer qualquer coisa, mas aceita-mo-lo com ar envergonhado. Se alguém nos dá alguma coisa, nós dizemos "oh deixa estar... não era preciso..." E nunca um Obrigado primeiro. Receber é uma arte tão bonita quanto a de dar. Na visão desse mendigo está a Partilha... do pouco que tem... e essa partilha... é dar. O receber fica sempre em segundo plano. Temos que ser nós a mudar e a mudar as gerações seguintes ;)

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    1. Foi bonito sim senhora. Chateia-me é aqueles que não têm problema em receber para logo destruir. Com esses é que eu fico danada! Beijinhos*

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  4. é bonita a história. E tenho aprendido nestas minhas incursões pelo desenvolvimento pessoal, que nós não somos ensinados a receber. Somos ensinados a agradecer qualquer coisa, mas aceita-mo-lo com ar envergonhado. Se alguém nos dá alguma coisa, nós dizemos "oh deixa estar... não era preciso..." E nunca um Obrigado primeiro. Receber é uma arte tão bonita quanto a de dar. Na visão desse mendigo está a Partilha... do pouco que tem... e essa partilha... é dar. O receber fica sempre em segundo plano. Temos que ser nós a mudar e a mudar as gerações seguintes ;)

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  5. Concordo contigo, também nunca dou dinheiro, por acaso também nunca dei comida (a não ser para o banco alimentar ou causas do género), mas era bem capaz de dar a quem realmente pede e precisa. Infelizmente histórias como as que contaste no início já ouvi várias :(, mas lá está, nem todas as pessoas são iguais e o acto desse senhor foi mesmo emocionante!

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    1. Foi surpreendente, não estava mesmo nada à espera! :)

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  6. Penso que já todos passamos pela experiência de oferecer comida e ver mais à frente essa mesma comida ser deitada ao lixo.
    Nunca dou dinheiro, comida e água nunca se nega foi assim que a minha mãe me ensinou. Essa história comoveu-me e faz-me acreditar que nem todos somos iguais e muitas pessoas ainda merecem a nossa bondade.

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    1. É verdade, há quem ainda mereça a nossa bondade :)

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  7. Também já me aconteceu o mesmo. E muitas vezes fico na dúvida se hei de dar dinheiro ou não. Depois, penso para mim: fica à consciência de quem o pediu. Se não foi para o bem, o problema não é meu. Eu dei com boa intenção.
    Não sei se estou a pensar bem ou não. Mas a verdade é que me corta o coração ver tantos sem abrigo e nós nunca sabemos o motivo pelo qual estão ali. Assim, tenho agido desta forma, se calhar um pouco egoísta para aliviar a minha consciência... Mas fico com um nó na garganta se não ajudo, nem que seja com umas moedas.

    Beijinho ♥

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    1. Dinheiro não dou, não gosto da ideia de estar a contribuir para os vícios dos outros. Quem não tem dinheiro, não tem vícios. Agora, se é para comer, eu ajudo e tenho prazer em ajudar. Pena é uma pessoa nunca ter bem bem a ideia se a ajuda vai ser bem vinda ou se ainda deitam fora comida.

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  8. Nem mais. Eu ajudo sempre que posso, mas com comida.
    Dinheiro, por vários motivos que não vou agora explicar, recuso-me mesmo a dar.
    Bonito gesto.

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  9. Veio a lágrima ao olho. Também já tive uma situação semelhante...

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    1. A mim não veio a lágrima ao olho mas fiquei comovida. :)

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  10. Mesmo. Eu também não dou dinheiro, prefiro ajudar com algo mais. Mas a tua história mostra que as pessoas não são todas iguais!
    Bjs

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    1. Não são, mesmo. Mas infelizmente há situações que nos levam a tomar por igual tudo e todos :/

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  11. Foi bonito. Uns não têm de pagar pelos outros. Eu pergunto se querem comida, se não quiserem, dinheiro também não dou. Dinheiro para drogas e alcool é que não...

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    1. O problema é quando dizem que têm fome, têm fome, têm muita fome e depois fazem o que fazem. A mulher do pão, aceitou a nossa oferta para deitá-la fora, podia muito bem ter recusado. Mas pronto, como dizes, uns não têm de pagar pelos outros.

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  12. pois, eu já é muito raro dar por isso mesmo ... às vezes oferece-se comida e parece que fazem um frete para receber aquilo que estão a pedir. enfim...

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    1. Por isso é que não costumo dar, prefiro dar a associações em que pelo menos por lá eles devem conseguir gerir melhor as coisas. E mesmo para associações, não dou dinheiro.

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  13. querida amiga: já me conheces, eu sou um coração mole numa carcaça dura. Eu também avalio muito bem a quem dou dinheiro ou comida, mas existe muita gente que precisa, quer e aceita com o coração aberto. É por isso que também ajudo bancos alimentares, unicef e associações de animais. O que se sente a seguir é priceless. mesmo mesmo. grande beijo e parabéns pelo acto generoso! Love ya!

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    1. É verdade, o que se sente a seguir é priceless :) Beijoca****

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  14. Quando fui passar três dias ao Porto no dia do meu aniversário e do meu namorado, apanhamos um homem que nos viu com sacos do continente e nos pediu comida. Nós dissemos que não tinhamos nada de jeito sem ser umas gominhas, uns sumos, umas bolachas e maças. E ele dá disse, "uma maçã está óptimo". Nós demos a maça e ele pega na navalha e começa a cortá-la e vai embora enquanto agradece. Foi a 1ª vez que dei comida assim.

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Gambuzinem