sexta-feira, junho 27, 2014

A moda do facilitismo

Todos os anos, na altura dos exames, as notícias sobre a dificuldade dos exames nacionais repetem-se. Todos os anos criticam que o teste de matemática foi demasiado complexo, que o teste de português era demasiado extenso, que o teste de biologia era demasiado para a cabeça dos pequenos xuxus que querem entrar na faculdade. Todos os anos, fazem cafuné na cabeça dos meninos porque, coitadinhos, estudaram arduamente durante três semanas para, chegados ao dia do exame, atirarem para cima da mesa um bicho papão em forma de teste muito complicado.

E eu questiono: será que são os programas e os exames muito complexos, ou será que a preparação é pouca? Porque, por aquilo que tenho visto, o facilitismo a que estas novas gerações estão habituadas está a atingir, a meu ver, patamares catastróficos, o que só desmotiva aqueles que querem realmente estudar e serem bons alunos e também não motiva os restantes a serem melhores alunos, visto que sabem que não precisam de estudar muito para terem positiva nos testes, passarem de ano e, futuramente, entrarem numa faculdade.

Lembro-me de, há onze anos atrás, quando acabei o ensino secundário e entrei na faculdade, ter levado com três anos duros e complexos de Geometria Descritiva A. Não foi só a minha paixão e amor profundos por esta disciplina que fez com que tivesse tido 20 no exame nacional e 20 de média dos três anos de secundário, nem foram (muito menos!) os testes fáceis: foi a paixão e o amor que os meus professores de geometria descritiva, principalmente os do 10º e 12º anos, tinham em ensinar, em explicar e na matéria em si, na complexidade e dificuldade dos seus testes, e na minha preparação contínua durante três anos, e não duas ou três semanas antes dos testes, que fez com que o meu exame nacional, um dos mais puxados e complexos em relação aos dos anos anteriores, tivesse sido feito com uma perna às costas. E a minha preparação não consistia em longas horas a estudar, bastava estar atenta às aulas e fazer os exercícios em casa. Por norma, na véspera dos testes, já nem abria o livro de exercícios. E quando digo geometria descritiva, digo para as outras disciplinas: a minha prioridade era entrar na faculdade e, como tal, foquei-me nisso.

Hoje os meninos estão habituados ao fácil. Sabem que pode assim pode ser, que podem estudar na véspera, que não é preciso muito para entrar numa faculdade. Muitos professores também não querem perder muito tempo com matérias difíceis e ainda menos a corrigir testes complexos. Sim, é um aborrecimento uma pessoa ter de se preparar para o pior, para o mais difícil, para o mais complexo. E é chato uma pessoa ter de ficar retida um ano porque não teve boas notas. Mas eu, pessoalmente, sinto-me mais confiante por um futuro melhor se souber que os meninos que hoje entram na faculdade são os que estão realmente melhor preparados e merecem mesmo lá estarem - sei isto por experiência própria, o difícil que é entrar para um curso que pedia uma média alta, e sei, igualmente, que mereci entrar naquele curso porque preparei-me e porque não estive à espera do mais fácil.

5 comentários:

  1. Também penso que os miúdos hoje têm tudo muito facilitado. Os exames de hoje em dia são tão, mas tão fáceis, que se não fosse para chorar até dava vontade de rir. E estes são os profissionais do futuro. Enfim, é o que temos :S

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  2. Clap clap.
    Excelente texto. Concordo com tudo. Devo admitir que nunca fui uma miúda que estudasse muito. Mas não o fazia não porque os testes não eram difíceis, era precisamente porque estava atenta nas aulas, fazia um ou outro exercício em casa, daqueles mesmo difíceis, fazia os trabalhos, e isso bastava-me. Acabei o secundário também há 10 anos com média final de 19,3. Os exames correram, a mim e à minha turma, bastante bem, porque tínhamos excelentes professores que nos prepararam para isso.
    Agora, o culto do facilitismo como tenho vindo a assistir, só contribui para alunos e mentes mais medíocres.

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  3. Concordo que hoje em dia há demasiado facilitismo. Acabei o secundário há dois anos e senti isso muitas vezes. Também terminei com uma média alta e custava-me ver que os bons alunos não eram suficientemente premiados, enquanto os maus alunos era demasiado desculpabilizados. Porque lá está, hoje em dia há muito esta mania de exigir o mínimo e de focar o sistema de ensino apenas na memorização

    Quanto aos exames, pelo que percebi (não sei o suficiente para avaliar o exame de matemática) são mesmo demasiado complicados. Ou, não sendo complicados, são desajustados com o tipo de exercícios e exigência que o programa pressupõe. Acredito que muitos alunos tenham má nota não porque não se prepararam, mas porque não tiveram a preparação certa. O de Português é, na minha opinião, completamente desajustado da realidade...não avalia convenientemente a escrita, requer pouco conhecimento das obras e tem escolhas múltiplas que oscilam entre o muito fácil e o absurdo, com 2 e 3 opções correctas ou erradas.

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  4. É verdade, e o pior é que o facilitismo não favorece os miúdos a longo prazo, pelo contrário...

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  5. Não podia concordar mais. Eu fiz seis exames nacionais em menos de três semanas. Passei a todos com boas notas e sem queixumes! Era minha obrigação se queria atingir o objectivo final e os meus país sempre disseram 'o teu trabalho é estudar, o teu salário São as notas'... nunca houve cafuné e histórias de coitadinhos e eu dou graças a isso diariamente.

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Gambuzinem