quarta-feira, outubro 26, 2016

Carta aberta às novas gerações

Quando passei para o ensino secundário, sabia que precisava de uma média alta para entrar na faculdade e curso pretendidos. Não tão alta quanto medicina, mas alta. E estudei. E trabalhei. Não era a chamado "rato de biblioteca", tinha a vantagem de, primeiro, ter uma memória praticamente fotográfica - apesar de fazer questão de saber, de aprender e não só memorizar - e, segundo, gostar bastante da área que tinha escolhido, o que facilitava o estudo. Mas mesmo assim, estudei e trabalhei muito para conseguir seguir aquilo que queria. Cheguei a fazer testes doente, também tive testes que não correram tão bem quanto gostaria, mas atingi os meus objectivos. Tive (muito) boas notas quer na escola quer nos exames finais e o mérito foi todo meu. Como tal, entrei para o que queria com uma boa margem em relação ao pedido. Se não tivesse conseguido, bem, a culpa teria sido minha e só minha. Conhecendo-me como conheço, teria chorado baba e ranho durante algum tempo mas depois ia outra vez à luta.
Não falo aqui em vocação, porque já é certo e sabido que muitos entram nos cursos que entram sem qualquer vocação só porque têm as notas e porque são cursos que "garantem" um futuro risonho. Mas não é disso que se trata, sempre foi assim e sempre será. Trata-se das regras do jogo, e estas até são simpes: é preciso pelo menos X de média para entrar nos cursos. Quem não atinge esse X, não entra. Pode não ser fácil chegar a esse X, mas a vida não é fácil. A vida dá trabalho. E é por isto que não percebo as gerações mais novas que acham que merecem troféus só por apareceram. Peço desculpa porque sei que não são todos assim, mas para os que são: mimados, não passam de putos mimados. E acharem que lá por tirarem o curso em Portugal, vão ficar sempre aí. Ingénuos. Eu também estudei aí. Arranjei trabalho na minha área de formação. Mas a vida dá tantas voltas que, como tantas outras pessoas, vim para o estrangeiro.
Tive colegas na faculdade que também não tinham conseguido entrar à primeira, mas estudaram mais, voltaram a tentar e conseguiram entrar nos cursos que queriam. E outros que não foram para aquilo que mais queriam mas depois conseguiram mudar, com permutas ou ao fazer, mais uma vez, novos exames nacionais. E não me lembro nenhum deles se queixar que não tinha conseguido porque a culpa era do sistema, que só por três décimas impedia de ir para o curso escolhido - por meio se perde, por meio se ganha, sempre ouvi. Da mesma forma, também sei de casos, na mesma altura, de outros estudantes que foram para o estrangeiro porque lá fora pediam médias mais baixas, mas sem grandes lamentações, conscientes que podiam ter estudado mais, e até entusiasmados por novas aventuras e gratos por terem a possibilidade de pagarem os estudos e todos outros encargos inerentes a saírem da casa dos pais e do país.
A vida dá trabalho, porque dá. Mas também não há maior orgulho que saber que o mérito é todo nosso, sem ajudas, sem comiserações, sem cartas abertas com chantagens emocionais.

8 comentários:

  1. chumbei no exame de história com 9,4 e não fiz birras, voltei no ano a seguir a fazer e tive 14. Lutem pq vale sempre a pena

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  2. É tudo isso! Podia ter sido eu a escrever este post!

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  3. Desculpa mas tenho que corrigir uma informação "errada" deste post....para entrar num curso não é exigida média nenhuma...a média do ano é a nota mais baixa do ultimo candidato a ser colocado..... Existem 50 vagas para um determinado curso e entram os alunos com as melhores 50 notas....Num ano a média pode ser 19 e no ano a seguir 10, dependendo das notas com que os alunos concorrem. A culpa pode ser do sistema só quando existem alunos que tiveram notas inflaccionadas no secundário e isso vais contribuir para que tenham uma nota de acesso à universidade nais alta....

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    1. Pode não ser exigida uma nota mas a média do último a entrar serve de "referência", até porque as médias destes, por norma, não vacilam muito de ano para ano. Além do mais, não nos podemos esquecer que, a não ser que as coisas tenham mudado radicalmente desde que eu fiz o secundário e os exames nacionais, a média do secundário vale 50% e a prova específica vale outros 50%. Para cursos em que por norma são precisas médias altas, não vale a pena a média do secundário estar muito inflacionada se chegares aos exames nacionais (que são iguais para todos os alunos em todo o país) e não tiveres boa nota também.
      A culpa é do sistema em muita coisa, mas nisto do ingresso às faculdades, nem por isso.

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  4. Infelizmente Portugal não valoriza os Portugueses que trabalham e lutam...

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  5. Ora aqui está uma grande verdade! Eu também me revejo neste seu texto! Estudei bastante, tirei o meu curso sempre a trabalhar pelo meio, exerci durante uns anos, desiludi-me e deixei essa profissão - e hoje sou freelancer num projeto meu que vai correndo "bemzinho". E, quando me dizem que eu tenho sorte, costumo citar o Ronaldo (nem gosto muito dele) mas tem uma frase fantástica com que concordo bastante: "ter sorte dá muito trabalho". Excepção feita para aquelas pessoas que sempre tiveram cunhas desde o colégio até ao último emprego, e que lhes cai tudo no colo. Mas isso não é bem sorte, é outra coisa qualquer! ;)

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  6. Ora nem mais!!!! Aplaudo de pé!!!! Mimo a mais é o que é!!! E os que não têm dinheiro para ir para fora??? Também vão pedir dinheiro ao Presidente!!! Menos!!

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  7. Concordo contigo! Não sei se esta publicação está ou não relacionada com a jovem que escreveu uma carta aberta ao Marcelo mas aí confesso que tenho de concordar com ela, em parte claro.
    Porque a verdade é que nós portugueses para ir para medicina temos de ter entre 18 e 20 de média para sermos médicos quando os espanhóis têm médias de 16. E no fim cá não há médicos suficientes e vêm para cá espanhóis. Para isso aumentem cá as vagas de medicina em vez de irem aqui ao lado contratar.

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Gambuzinem